caju amigo
muita estrela pra pouca constelação
semana passada um amigo perguntou qual era a minha primeira lembrança de coquetel. respondi que preparava caipirinhas em churrascos familiares e talvez seja isso mesmo.
depois disso muita coisa aconteceu, com direito a derrapadas formidáveis nos primeiros anos de juventude.
mas felizmente envelheci. aprimorei a receita de caipirinha após muita conversa e treino com o saudoso amigo gelson do lapinha e o souza, na época à frente do veloso.
outros fatos ocorreram. bebia e gostava tanto de dry martini que aprendi a preparar por razões financeiras. sustentabilidade.
e teve a fase do negroni, claro. nessa época já era conhecido no ramo e gosto de cultivar a pretensiosa ideia de ter sido responsável pelo hype da bagaça. pro bem e pro mal. o que era um drinque de tiozão de churrascaria se transformou em modinha planetária entre foodies e drinkers.
em algum versículo do velho testamento morei no mesmo bairro que danilo nakamura, que manja do traçado, tanto bebendo quanto batendo drinque. um ficava indo na casa do outro e testávamos bebidas até o amanhecer com notáveis amigas como convidadas. chegamos a interferir na distribuição de gim nos mercados locais.
quando me mudei para a república, montei um bar no meu quarto de dormir. aquilo foi o auge. não é de bom tom relatar a maior parte das ocorrências boêmias, por razão da maior parte das almas envolvidas ainda estarem vivas e com sede.
danilo se consagrou com várias cartas de drinques espalhadas pela cidade. eu também tenho algumas espécies por aí, publiquei um livro de iniciação à coquetelaria - a mão que balança o copo - e dei um curso eletrônico, “drinques caseiros da casa”, além de publicar farto material sobre o assunto nas redes sociais onde atuo desde 2007.
e criou-se uma cena coqueteleira no brasil com um nível internacional que vai muito além da minha história. finalmente posso apenas beber, embora ainda atue na área etílica gastronômica onde resido desde 1997.
essa onda de guest não é novidade. o primeiro relevante foi quando o aniversariante do mês chegou numa festa caretona e transformou água em vinho, pro entretenimento da galera.
mas acho que passamos um pouco da dose e que hoje temos mais copos que bebedores. se você abrir a geladeira da cozinha de sua casa corre o risco de sair da prateleira de legumes um bartender te oferecendo um gorózinho direto de uma ação da campari. aliás, outra coisa que anda pecando pelo excesso é essa enxurrada de gincanas promovidas pela indústria da bebida.
shots à parte, quando o bartender se diverte mais que o bebedor, o seu comportamento se assemelha a uma banda chata de rock progressivo que se diverte no palco muito mais que a sonolenta platéia.
não devemos esquecer que não é só sobre bebida, que essa tal da hospitalidade é fator um tanto importante no setor.
ontem fui conhecer um bar dentro de um hotel perto do morumbi shopping. boa luz, lugar pra escolher em frente ao bonito balcão, drinks bem bons e comida gostosa. como não é exatamente em conta - o que custa é a operação, lembre-se sempre disso - não dá pra ir toda semana, mas com certeza voltarei sempre que puder. porque me entregaram cada centavo investido.
o que desejo pros goles de 2026? que beber um gorozinho volte a ser um troço mais de boa.
e que o foco dos bartenders seja no copo e na freguesia, não neles mesmos.


Perdi a moda do negroni. A próxima eu pego
Obrigado pelo texto! É um prazer acompanhar o maior volume de publicações JB!