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e a garoa paulistana que não voltará nunca mais
passei o primeiro quarto de século da vida em subdistritos lapeanos, onde vivia tal como um aldeão. jogava bola na rua, os primeiros bares ficavam pela vizinhança, os mantimentos eram comprados em quitandas de secos & molhados e o pão da padaria tava sempre quentinho. podia escolher moreninhos sem medo do cancelamento. imagino que se a cultura panificadora sobrevivesse aos dias de hoje teríamos que pedir ao balconista com muito jeitinho me vê, por favor, 2 afro-descendentes e 1 albino de porte médio.
quando pingava um dinheiro extra, ia pra cidade, como dizia a minha mãe. eram dois passeios possíveis. paulista e centro.
a condução usada em ambos os rolês era o busão. o trajeto até a paulista tinha o que chamo de reta torta, começava na cerro corá, pegava a heitor penteado inteira e terminava na consolação, dobrando na paulista à direita. já pro centro era um retão mesmo. clélia, francisco matarazzo, são joão e já era. admito que o vandalismo juvenil à vezes fazia com que descesse do busão na altura do parque antartica com o claro propósito de quebrar uns vidros nas ruínas da indústria matarazzo. creio que a família nunca se importou muito com o estrago causado.
a intenção dos dois destinos era parecida. bancas de jornal pra ver magazines e quadrinhos que não chegavam por aqui e sessões de filmes em cinemas de rua.
no centro havia bônus que por tantas vezes roubava o protagonismo do cineminha. galeria do rock pra comprar discos - e os onipresentes cds nos anos 90 - e rolezinho até a praça ramos de azevedo, onde sentava no banco de frente pro theatro e brincava de velho. às vezes o mappin me presenteava com ofertas irrecusáveis. se soubesse cuidar melhor das minhas coisas, hoje teria dinheiro pra comprar um apartamento, se vendesse todos discos, cds e bugigangas compradas nessa época.
pra voltar, o mesmo busão que tinha me levado. tanto na ida quanto na volta pegava a condução no ponto final, com o propósito de conseguir me sentar num banco de frente pra janela, onde colocava o rosto pra fora pra tomar ventinho tal como um cachorro.
hoje estou com 51 anos e moro há 10 no centro expandido. os 5 primeiros na república e o restante em santa cecília, onde conservo hábitos antigos de aldeão. aqui não preciso de condução pra nada. da ampla frente de bares modernos ao farmacêutico da velha escola que ainda aplica injeções na raba, tem de tudo que você possa imaginar nesse território.
entre idas e vindas, alguns trabalhos sugerem que eu use o metrô como condução. de fato esse tipo de transporte é rápido e eficiente.
acontece que venho de um pedaço onde não tem metrô até hoje. na lapa tem busão pra cidade e trem pra osasco, carapicuíba, itapevi, jandira. pra pirituba, perus também se vai de ônibus, assim como pra zona norte e os bairros na beira da anhanguera.
quando morava na república tinha um trampo legal na praça da sé. ia de metrô - trajeto simples, duas estações de distância - e voltava de madrugada à pé. carrego comigo a lembrança do delicioso vento frio cortando a minha casa. são viadutos vazios, como diz zé rodrix, mestre maior.
além de mudar de bairro e trampo, o mundo pós pandemia ficou mais triste, com as suas ruas menos cuidadas e o desespero dos onipresentes adictos, jogados de um lado pro outro de dois em dois anos pelo prefeito da vez.
eu também mudei, estou uma arroba mais gordo e tenho menos resistência pro único exercício possível, a caminhada. sem contar que não é de bom tom chegar em qualquer lugar de maneira menos apresentável.
curiosidade. petisco, meu dog de 7 anos, outrora bem louco, hoje é mais tranquilo e mudou a velocidade dos meus passos. menos exercício, mais contemplação. até porque o destino final dificilmente sairá do lugar.
tudo isso pra falar que nunca andei tanto de metrô e às vezes pego a direção errada e erro a baldeação. no lugar das ruas da cidade e vento na cara, pessoas com a fuça enfiada em seus smartphones - usam como se fosse um terço, uma bíblia. fé cega, celular afiado - e um ar condicionado de eficiência discutível. ontem - ao descer no anhangabaú pra ir à rua formosa - me lembrei que na primeira vez em que usei metrô - pra aprender a chegar na woodstock discos, na dr. falcão - cheguei a dar sinal pro maquinista e também procurei a campainha pra apertar pra descer na estação de meu destino. sim, fui um jovem jeca e talvez não tenha mudado muito.
pelo menos aprendi a andar mais devagar, o que não é nada mal.
seja a pessoa que o seu cachorro acha que você é.


"Seja a pessoa que seu cachorro acha que você é." Se isso não é literatura clássica, nem sei o que é.
Cresci nos anos 1970 numa região afastada e também íamos para a “cidade” e o transporte era o busão. Devo ter rodado milhares de km no Lapa 856R que eu pegava pra ir para o clube. De busão também ia-se para a av Santo Amaro na altura da vl Olimpia onde havia cinemas (vi Guerra nas Estrelas no dia que estreou sentado no chão do cine Vila Rica) e o Wave Park. Mas hoje pra falar a vdd prefiro o trem e o metrô que chacoalham menos